Desligar o desenho animado preferido, sair de casa de manhã, mudar de sala, voltar à turma depois das férias. Para muitas crianças autistas, passar de uma coisa para a outra é mesmo difícil. Não é birra nem oposição. O cérebro tem de largar o que conhece, reorganizar-se e enfrentar o que vem a seguir, muitas vezes sem saber o que esperar.
Estes momentos preparam-se. Aqui ficam cinco pontos concretos, para adaptar a cada pessoa.
Avisar cedo, com referências precisas
«Daqui a pouco» não diz nada a quem precisa de precisão. Funcionam melhor as referências que se podem verificar. «Daqui a dez minutos arrumamos as peças. Depois calçamos os sapatos.»
Três hábitos ajudam ao avisar.
- Dizer o que vai acontecer, por que ordem e o que fica igual.
- Usar palavras literais. «Saímos às 8h15» em vez de «temos de nos despachar um bocado».
- Admitir o que ainda não se sabe. «Ainda não sei quem vai estar na tua turma. Digo-te assim que souber.»
Quando o plano muda de repente
Se o passeio for cancelado ou a professora faltar, nomear a mudança com calma já tira boa parte da ansiedade. Explicar o que muda, o que não muda e o que vem a seguir.
Tornar o plano visível
O que se diz apaga-se depressa. O que está afixado fica. Um horário em imagens ou em palavras, à altura dos olhos da criança, permite-lhe voltar a ele as vezes que precisar.
Dois apoios fazem diferença no dia a dia.
- Um horário visual da manhã, em que se riscam ou se retiram os passos.
- Um temporizador visual que mostra o tempo que falta sem ser preciso ler as horas.
Estes apoios não são uma imposição. Dizem uma coisa simples. Isto é o que vai acontecer, não tens de adivinhar.
Manter um objeto ou um ritual estável
Quando tudo se mexe, um ponto fixo ajuda. Um objeto pequeno no bolso, a mesma canção no carro, a mesma frase à porta da escola. O ritual não precisa de ser longo, precisa de ser igual todos os dias.
Depois das férias de verão, retomar as rotinas alguns dias antes do início das aulas muda muita coisa. Hora de acordar, trajeto, mochila preparada na véspera. O primeiro dia deixa de ser uma primeira vez.
Ensaiar a mudança antes de ela acontecer
O que já se viveu, mesmo a fingir, assusta menos. Fazer o caminho até à escola num domingo, visitar a escola nova antes do início, representar a cena com peluches. É exatamente o que permite o treino de situações sociais: repetir uma situação com calma, as vezes que forem precisas, como nos cenários guiados da Sociami.
Convém prever também uma saída de emergência. O que pode fazer o teu filho ou a tua filha se se sentir sobrecarregado no recreio? Com quem pode falar? Uma resposta escrita ou desenhada ajuda muito.
Depois da transição: rever o que ajudou
Primeiro, dar um tempo para voltar à calma. Depois, fazer perguntas simples. O que correu bem? O que ajudou, o temporizador, o objeto, a frase de despedida? O que mudamos da próxima vez?
Anotar as respostas vai construindo, com o tempo, a lista do que funciona para aquela pessoa. Um momento difícil não é um fracasso. É informação.
Cada pessoa é diferente e, por vezes, são precisas várias tentativas para encontrar o que serve. Um profissional que conheça a criança, seja da psicologia, da terapia ocupacional ou da equipa da escola, pode ajudar a adaptar estas ideias. Este artigo dá pontos práticos, não um parecer médico.
FAQ
Porque é que o meu filho ou a minha filha autista reage tão fortemente a mudanças de rotina?
A mudança obriga o cérebro a largar uma referência conhecida e a reorganizar-se sem saber o que vem a seguir. Essa incerteza custa muita energia a uma criança autista, que muitas vezes já gere a carga sensorial e social do dia. A reação não é oposição, é sobrecarga.
Como anunciar uma transição difícil a uma criança autista?
Avisando cedo, com referências precisas e literais. Dizer o que vai acontecer, por que ordem e o que fica igual, e admitir o que ainda não se sabe. Evitar «daqui a pouco» e «logo se vê», que deixam a criança a adivinhar.
Com quanta antecedência preparar uma mudança grande, como a entrada no 5.º ano?
Não há uma duração universal. Começa-se por um anúncio simples e observa-se. Se a criança faz muitas perguntas, dão-se mais detalhes ao longo dos dias. Se fica preocupada, aproxima-se a informação da data. Visitar o local antes do dia é útil em qualquer caso.
Os apoios visuais continuam a servir a quem já sabe ler?
Muitas vezes, sim. Um horário escrito pode ser consultado a qualquer momento, o que tranquiliza mesmo quem lê bem. O formato importa menos do que a informação estar sempre disponível. Escolher o apoio em conjunto com a criança.
O que fazer quando o meu filho ou a minha filha chora ou se zanga na hora de sair?
Manter a calma e falar pouco. Quem está sobrecarregado não consegue ouvir explicações. Propor um gesto simples, sentar-se um momento, agarrar o seu objeto, e deixar a conversa para mais tarde, quando a calma voltar.
A Sociami é uma ferramenta de treino de situações sociais, não um dispositivo médico.